4 de out de 2013

[Mini Fic] Enjoy the Silence


Capítulo 4

Um fazendeiro conhecido da região morreu na nossa sexta noite na fazenda dos Blanco. Todos os empregados tinham ido ao velório, inclusive Claire, que obrigou Will e Ane a irem junto, porque o tal fazendeiro havia dado um cavalo para o Will quando ele era pequeno, então ele tinha que ir.

Consegui escapar por pouco. Disse que estava com dor de barriga, claro que o Will percebeu que era mentira, mas a Claire logo me encheu de paparicos e recomendações antes de sair. Suas últimas palavras antes de fechar a porta foi ‘dê uma olhada na Lu por mim’.
Então lá estava eu, parado na porta do quarto amarelo, decidindo se batia ou não. A casa estava silenciosa, a ponto de conseguir ouvir os passos que a Lua dava dentro do quarto e... Calma aí! Ela estava chorando? Eu poderia jurar ter ouvido um soluço e um suspiro.

- Lua? – bati na porta bem de leve, nenhuma resposta – Posso entrar?
- Entra – a voz dela estava meio rouca; quando entrei, meus joelhos ficaram momentaneamente fracos. Ela estava sentada na sacada com uma perna de cada lado dos balaustres. Ela tentava me dar o típico olhar cínico, mas eu vi que seus olhos estavam vermelhos e a maquiagem um pouco borrada – Relaxa, Aguiar, eu não vou me matar... Por mais que todo mundo implore por isso...
- Eu sei, você adora fazer o oposto ao que as pessoas querem – minha voz saiu fria, ela me irritava com aquela mania de se fazer de vítima – E ninguém quer te ver morta...
- O que você quer aqui? – educada como sempre, ela me cortou virando de costas, colocando as duas pernas pra fora da sacada.
- Todos foram pro velório do tal Senhor Gilbert, só estamos nós dois em casa – me aproximei, parando ao lado dela e apoiei os cotovelos na sacada – Daí eu pensei em...
- Vir aqui ver se eu queria me divertir com você? – ela me olhou de lado, tentando dar seu sorriso venenoso, mas falhou. Parecia uma menininha triste que mentia sobre como tinha conseguido um machucado no joelho.
- Você só pensa em sexo? – soltei sem pensar. Ela riu.
- E não é o que todo mundo pensa? Não é o que você pensa quando me vê?
- Eu desisto de você – revirei os olhos e desencostei da sacada, quando ia embora, ouvi a Lua murmurar:
- Você nunca tentou.
- Eu nunca tentei? Eu?! – virei sentindo uma raiva repentina me atingir.
- Tá doido? Do que você tá falando?
- Eu ouvi você dizer que eu nunca tentei. Como você se atreve a dizer uma coisa dessas? – cheguei bem perto dela, que tinha virado um pouco pra me olhar – Foi você quem pirou, virou esse material de Paparazzi, uma garota cínica...
- Você tá guardando isso dentro de si há quanto tempo? – ela disse do nada, calma e sorrindo – Diz logo tudo de uma vez, a Lua malvada vai ficar quietinha enquanto você desabafa, tá? – ela falou fazendo bico. Sarcástica dos infernos!
- Você é ridícula, Lua, sabia disso? – eu disse alto, como ela conseguia me fazer perder a linha tão fácil? – Ou melhor, você se tornou ridícula.
- O quê? Queria que eu fosse a Lua fofa que morria de amores por você pelo resto da vida? – mais uma vez, se ela fosse um cara, eu batia nela. Ah, eu batia sem dó alguma.
- Eu queria que você fosse você mesma. E não um personagem – eu não me lembrava de ter chegado tão perto dela – Isso é a vida real e não um dos seus filmes. Ah, esqueci! Ninguém te contrata porque você passou a ser uma bêbada incontrolável!
- Ui, olha só o gatinho mostrando as garras – olhando bem de perto, os olhos dela ameaçavam derramar mais algumas lágrimas; totalmente em contraste com a expressão que ela forçava, de ironia. Ela riu quando eu a segurei pelos ombros e a sacudi – Não conhecia esse seu lado agressivo... Se me lembro bem, você tinha até medo de me machucar se fizesse algum movimento mais profun...
- Cala a boca! – ok, ela me fez perder o resto da paciência que eu tinha - Chega! Lua, essa sua pose de que não liga pra nada não me engana mais. Eu te ouvi chorando... Eu posso não ter estado com você nos últimos tempos, mas eu consigo ver nos seus olhos o quão triste e sozinha você está! – o sorriso dela se desfez antes de cerrar os olhos, colocando as pernas para o lado de dentro da varanda, eu ainda a segurava, com medo de que aquela maluca resolvesse se jogar dali.
- E se for verdade? O que você tem com isso? – quando ela finalmente sentou direito, ficando de frente pra mim, eu soltei seus braços. Por estar sentada na sacada, ela ficou da minha altura, e eu finalmente olhei no fundo dos olhos dela e vi... – Ah, você acha que eu ainda gosto de você? Ah, que bonitinho! Isso é realmente fofo, até pra você, Arthur.
- E eu tô começando a duvidar que um dia você chegou a gostar e... – nem pude tomar ar pra terminar a frase. Lua simplesmente me puxou pela camisa, me fazendo ficar entre as pernas dela. Eu não esperava por isso, então não tive reação alguma!
- O que foi? Não tem mais nada a dizer? – ela sussurrou com a voz trêmula; me senti uma bicha dando pela primeira vez. As mãos da Lu estavam geladas, me causando arrepios quando as colocou na minha nuca; não pensei antes de colocar as minhas em torno da cintura dela, fazendo nossos corpos se tocarem pra valer. Lua sorriu de lado ao encostar sua testa na minha, respirando de um jeito mais profundo, me deixando meio zonzo – Você sentiu falta disso, não sentiu? – ela murmurou ao fechar os olhos. Eu só respirei fundo, passando meu nariz pelo da Lu, concordando. Ah, eu senti falta mesmo, porra!

Se a Lua sequer sonhasse em como minhas pernas tremeram quando ela pressionou seus lábios contra os meus, ela morreria de rir de mim, certeza. Encostei a ponta da língua na boca dela, que riu baixinho ao virar o rosto. Deu alguns beijinhos na minha bochecha, voltando para a boca; roçou os lábios nos meus, quando inclinei a cabeça pra beijá-la, Lu se afastou de novo. Caralho, ela estava brincando comigo e o idiota estava caindo.

- Confessa que nunca me esqueceu – ela sussurrou e mordeu logo abaixo da minha orelha. Apesar de estar meio que entorpecido pelo momento, quando entendi o que ela tinha dito, meu sangue congelou e então voltou a correr rápido, de raiva.
- Esqueci... Mas pelo jeito você não me esqueceu – disse baixo, e senti quando o corpo da Lu enrijeceu. Há! Eu também sabia ser malvado, bonitinha. Segurei firme em sua cintura e a coloquei de pé, no chão; ela me olhou confusa – Eu não sou um brinquedinho, Lua. Vê se cresce.

***

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