27 de jul de 2013

Addicted - Cap 31





Vinte e oito dias. Seiscentas e setenta e duas horas. Quarenta mil trezentos e vinte minutos. Nunca o tempo passou tão devagar. 
Todo esse tempo sem sequer ouvir a voz do Arthur era como se os ponteiros do relógio não se movessem realmente. Parecia que a cada dia um pedaço de mim desaparecia.

Diego passava a maior parte dos dias comigo, mas sempre ia na casa do Micael ver o pai. Eu sentia como se ele fosse o mais próximo de Arthur que eu podia chegar, sempre que ele voltava pra casa depois de passar um dia inteiro com o pai, era como se eu visse realmente o Arthur refletido nele. 

Eu tentava sempre manter minha cabeça ocupada com os trabalhos da faculdade, e até ficava mais tempo no estágio, apenas pra não deixar nenhum tempo livre pra mim mesma. Com o passar dos dias, eu tive que aprender a bloquear as memórias ruins, tentava ao máximo me prender as coisas felizes.

'Lu, acorda!' Cassie, a garota que fica na mesa ao lado da minha na empresa, estalou os dedos na frente no meu rosto. 'Seu celular tá tocando.' Ela apontou o aparelho em minha mesa que vibrava escandalosamente. Eu sorri agradecida e peguei o celular que mostrava o nome de Sophia na tela.

'Hey.' Falei baixo com medo que minha chefe aparecesse e me pegasse no telefone em pleno horário de trabalho.

'É rápido, eu sei que se a Margot te pega você tá ferrada.' Sophia riu. 'Tá afim de vir aqui na casa do Micael quando sair daí?' Ela perguntou animada e eu hesitei uns segundos. 'Os meninos foram pra casa do Pedro ensaiar, só tem eu aqui já que eles levaram o Diego também!' Ela respondeu sem que eu precisasse perguntar.

'Hm... ok! Eu devo sair daqui à uma hora mais ou menos. Até mais.' Desliguei o telefone segundos antes da irritante voz da Margot penetrar a sala. 

'Boa noite, amiga linda!' Sophia falou abrindo a porta do apartamento do Micael e eu sorri. Eu ainda me perguntava por que eles dois não moravam juntos logo. Ela morava mais na casa dele que na dela mesmo, e os pais dela são apaixonados pelo Micael. 'Como você tá?' Essa era a pergunta mais frequente nos últimos dias.

'Bem, um pouco cansada só.' Falei me espreguiçando e sentei no sofá.

'Aluguei a ultima temporada de Friends pra gente assistir!' Ela mostrou os dvd's e eu sorri animada. 'Vai botando aí, vou fazer pipoca!' Ela jogou os dvd's pra mim, e correu para a cozinha.

Minutos depois ela voltou com um balde imenso de pipoca e refrigerante.

'Ai, saudade de Friends.' Comentei enchendo a boca de pipoca e So concordou silenciosamente.

Ficamos horas comendo e rindo, nem sentimos o tempo passar. Olhei o relógio e vi que já eram quase dez horas da noite.

'Sô, já tá tarde, os meninos...'

'Eles não vão chegar agora, Lu.' Ela me interrompeu. 'Quando eles vão ensaiar na casa do Pedro eles voltam tarde. Esses dias eles têm ido sempre lá.' Ela deu de ombros e eu concordei. 

Ficamos alguns minutos observando a tv que estava em um canal de noticias qualquer, até eu lembrar de um texto de filosofia que eu tinha prometido explicar pra Sophia depois da aula, mas acabou não dando tempo.
  
'Sô, você tem aí aquele texto de filosofia que o professor deu hoje e você não entendeu?' A olhei a ela arqueou a sobrancelha. 

'Nop, tá em casa. Pra quê você quer isso agora?' Ela fez careta.

'Pra eu te explicar, oras.' Dei de ombros.

'Ah não, Lu. Filosofia a essa hora da noite, ninguém merece né?' Ela resmungou e eu ri.

'Eu tenho o texto lá no carro. Vou lá pegar!' Falei me levantando e Sophia puxou meu braço pra eu sentar de novo.

'Nem pensar, Lua. Vai, amanhã você me explica!' Ela fez bico e eu balancei a cabeça negando.

'Nãnão, amanhã eu não vou tá com saco de te explicar. To com vontade de fazer isso agora.' Me levantei novamente e Soph bufou. Quando eu estava quase na porta, um móvel pontudo que eu nunca tinha realmente reparado arranhou meu braço me fazendo pular e soltar um gemido de dor.

'Que foi?' Sophia correu até mim e eu mostrei meu braço. 'Ah, bem vinda ao grupo que se machuca com essa coisa aí no meio da passagem. Já falei mil vezes pro Micael tirar isso.' Ela se irritou e pegou meu braço que tinha um corte um pouco grande e começava a sangrar. 'Vamos ali na cozinha pra passar uma água.' Ela me pegou pelo braço que não estava machucado.

'Ná, eu cuido disso sozinha, vai lá embaixo pegar o texto no meu carro?' Ela rolou os olhos e eu sorri. 'Tá no banco de trás, na pasta.' Entreguei a chave e ela saiu de casa pisando forte me fazendo rir.

'Ah, tem uma caixinha de primeiros socorros no banheiro do quarto dos fundos!' Ela falou antes de bater a porta.

Liguei a torneira e botei meu braço embaixo da água corrente sentindo a pele arder levemente. Fui até o quarto que ficava na parte de trás da cozinha e peguei a pequena bolsinha de primeiros socorros em um armário, e voltei pra cozinha me sentando em um banco. Procurei algum remédio para aplicar no corte em meu braço e depois de alguns segundos achei um tubinho em spray que dizia que podia ser aplicado em caso de cortes e arranhões. 
'Ótimo!' Falei destampando o frasco e apontei para o braço machucado. Tentei borrifar, mas parecia estar travado. 'Merda, sai logo!' Falei irritada.

Ouvi a porta da frente se abrir e fiquei surpresa com a rapidez de Sophia. Tentei novamente borrifar o remédio em meu braço, apertando com mais força, mas uma voz fez meu coração parar.

'Sophia?' Arthur apareceu na porta da cozinha e enquanto eu sentia meu estomago revirar, minha cabeça girar, meu coração parar de bater, e o remédio milagrosamente sair, espirrando um grande conteúdo em meu braço.

'OUTCH!' Gritei ainda apertando o borrifador sem perceber.

'Lu!' Arthur correu e tirou o remédio da minha mão enquanto eu fazia careta sentindo meu braço quase pegar fogo. 'Você tá bem?' Ele estendeu a mão pra meu braço machucado, mas eu me encolhi gemendo baixinho. Era como se o medo tivesse se abatido sobre mim, por mais que eu tivesse bloqueado completamente qualquer memória que eu pudesse ter daquela noite, o pânico ainda estava lá, a dor e a repulsa estavam comigo, apenas esperando o momento certo para se mostrar.
Arthur suspirou se afastando de mim como se pedisse desculpas e eu não me senti capaz de falar nada e nem muito menos olhá-lo. Soprei levemente o corte em meu braço numa tentativa frustrada de fazer a ardência ir embora. Peguei novamente o spray sentindo o olhar de Arthur em mim e apontei o borrifador pro meu braço já me preparando pra dor, mais uma vez a tentativa foi frustrada. Resmunguei baixo sacudindo o frasco, e quando o liquido bateu em meu braço eu gemi.

Arthur saiu da cozinha e eu suspirei aliviada sentindo meu coração voltar a bater normalmente. Não por muito tempo já que minutos depois ele voltou com um frasco e alguns algodões na mão. Puxou uma cadeira e sentou ao meu lado hesitando um pouco antes de falar. 

'Posso?' Ele apontou pro meu braço machucado e eu me senti uma criança que tinha acabado de cair da bicicleta e não sabia o que fazer.

Olhei meu braço machucado que ainda ardia e depois olhei rapidamente o rosto de Arthur. Suspirei fraco e movimentei meu braço para mais perto dele sem dizer nenhuma palavra. Ele o pegou cuidadosamente e olhou o machucado, depois molhou o algodão com o remédio que ele tinha levado para a cozinha e passou devagar no machucado como se tivesse medo de me machucar com o mínimo toque.

'Ai.' Falei sem querer puxando um pouco meu braço.

'Desculpa.' Ele respondeu baixo afastando as mãos. Balancei a cabeça sem olhar pra ele e aproximei novamente meu braço. Arthur novamente passou o remédio cuidadosamente enquanto eu sentia um arrepio leve em cada parte do braço que ele tocava. Levantei meu olhar para o rosto dele que estava concentrado e fiquei alguns segundos perdida em pensamentos sentindo o ar sumir completamente dos meus pulmões.
 Minutos depois, que para mim pareceram horas sem fim, Arthur guardou os remédios novamente na bolsa de primeiros socorros e eu observei meu braço que agora parecia melhor. 
'Brigada.' Sussurrei sem ter certeza de que ele tinha realmente ouvido.

'Sem problemas.' Ele falou no mesmo tom e saiu da cozinha.

Mordi meu lábio inferior e suspirei sentindo uma lágrima solitária escorrer por minha bochecha.
Meu coração ainda não tinha voltado ao ritmo normal e minha cabeça ainda parecia girar, continuei sentada incapaz de me mexer. Micael e Sophia entraram em casa e junto com eles a voz de Diego chegou até mim, segundos depois ele entrou correndo na cozinha se jogando em meu colo.

'Ei, príncipe!' Sorri ajeitando-o em meu colo. 'Se divertiu hoje?' Ele me olhou sorrindo.

'Eu toquei violão!' Ele falou animado. 'Papai me ensinou.' 

'Hm... e você gostou de aprender?'

'Gostei.' Ele botou o dedo na boca mas eu tirei. 'To com sono.' Ele fez bico.

'Vamos pra casa então, meu amor. Amanhã a gente tem aula!' Falei rindo e me levantei botando Diego no chão. Ele saiu correndo gritando pelo pai.

'Hey.' Sophia apareceu na cozinha antes que eu saísse. 'Desculpa, eu não imaginava que eles iam chegar por agora.' Ela sorriu pedindo desculpas e eu balancei a cabeça.

'Agora já foi.' Dei de ombros. 'É melhor eu ir pra casa, o Di tá cansado.'

'E seu braço?' Ela pegou o braço arranhado e eu sorri fraco.

'Já tá melhor.' Fiquei em silencio alguns segundos. 'O Arthur me ajudou com o remédio.' Ela me olhou séria.

'Tá tudo bem?' Ela perguntou preocupada.

'É só que...' Eu suspirei fechando os olhos. 'Eu acho que senti medo quando ele foi tocar em mim.' Minha voz saiu num sussurro. Sophia me abraçou forte passando a mão em minha cabeça. 'Eu não queria sentir medo, Sô. Mas quando ele me tocou eu senti como se ele pudesse me machucar novamente.'  
'Ele não vai te machucar mais, Lu.' Ela falou me soltando. 'Olha, quando eu descobri o que ele tinha feito com você eu quis bater tanto nele, pedi pro Micael não deixar ele ficar aqui, você sabe, passei dias sem olhar pra cara dele.' Ela suspirou. 'Mas depois que eu me acalmei e conversei com ele, foi quase como se eu sentisse a dor dele. Ele me contou sobre tudo que aconteceu naquele dia. Primeiro foi aquela festa aqui, você chorando, no dia seguinte a Perola disse que ia embora. Tudo bem que nada justifica ele ter bebido e feito aquele absurdo com você, mas ver a forma como ele falava que sentia nojo de si mesmo e que teria que conviver com isso pelo resto da vida.' Ela parou um instantes balançando a cabeça. 'Eu nunca tinha visto a dor nos olhos de uma pessoa como eu vi nos dele, o arrependimento, a culpa, tudo misturado. E ainda ter que ver você mentindo que tava tudo bem, ver você contando os dias, os minutos. Pra mim era praticamente um alivio quando os dias terminavam, ver você naquele estado era horrível pra mim.' Ela parou de falar e eu a encarei ainda absorvendo tudo que ela tinha dito.

Sophia nunca tinha me dito sobre a conversa que ela teve com o Arthur, ela sabia que aquilo ia me deixar mal e preferiu não falar. Eu me senti completamente culpada por ter deixado ela daquele jeito, todo esse tempo eu só olhava o meu lado e era incapaz de perceber o sacrifício que Sô fazia pra me distrair, pra não deixar que ninguém me machucasse e me fizesse lembrar de tudo.

'Desculpa por ter feito você se sentir assim, isso foi egoísta da minha parte.' Falei olhando para minhas mãos.

'Não foi egoísmo, Lu. O que você passou...' Ela suspirou. 'Eu não culpo você por nada, eu só quero que você seja realmente feliz.' Ela sorriu e eu retribui.

'Mããe!' Diego entrou na cozinha correndo. 'Papai não quer ir pra casa.' Ele fez bico e eu suspirei olhando pra Sophia.

'Diego.' Me agachei pra ficar da altura dele. 'O papai tá ficando aqui na casa do tio Micael por algum tempo.' O bico dele aumentou. 'Pensa bem, meu amor, assim você pode ter duas casas. Você não tá gostando de vir aqui sempre e ver o tio Micael e a tia Soph?' Sorri, mas ele continuou emburrado.

'Paaaai!' Ele saiu da cozinha gritando e eu suspirei longamente. 

'Essa é a pior parte.' Falei olhando pra Sophia e ela sorriu fraco.

Fomos para a sala e Micael estava vendo tv, enquanto Arthur estava com Diego no colo provavelmente tentando convencê-lo de que ele teria que ficar na casa de Micael. Observei os dois enquanto Arthur falava baixo e Diego continuava emburrado.

'Lu.' Micael caminhou até mim e começou a falar baixo. 'Não é melhor o Arthur ir até lá, erm... só enquanto o Diego não dorme, depois ele volta.' Ele me olhou apreensivo e eu senti meu coração disparar com a mínima possibilidade de ter Arthur em casa de novo.

'Micael, eu não acho que essa seja uma boa ideia.' Sophia sussurrou.

'Não, talvez seja o único jeito.' Falei tentando parecer tranquila.

'Tem certeza?' Sô arqueou a sobrancelha e eu mordi meu lábio balançando a cabeça.

'Não.' Acabei falando.

'Mãe.' Diego me chamou já com a voz de choro. Fechei meus olhos por alguns segundos e depois caminhei até onde ele e Arthur estavam. 'Papai não quer ir pra casa.' Ele falou novamente pendurado no pescoço de Arthur.

'Diego, não é isso.' Arthur tentou se defender. 'Eu preciso ficar um tempo aqui com o tio Micael, escrevendo musicas. Você pode vir aqui sempre que quiser.'

'Mãe, a gente pode ficar aqui?' Ele me olhou.

'Diego, você tem aula amanhã, e eu também tenho! A gente precisa ir pra casa, vamos, meu amor. Amanhã você vem pra cá novamente.' Eu já estava começando a implorar.

'Não vou!' Ele agarrou mais no pescoço de Arthur.




Escondi meu rosto nas mãos e fiquei alguns segundos respirando fundo. Olhei pra Soph e Micael que nos observavam em silencio e lancei um olhar derrotado pra Sophia. Ela cutucou Micael discretamente.

'Dude, vem aqui no quarto!' Ele chamou Arthur que concordou silenciosamente colocando Diego no chão.

'Vai ser rápido, Lu. É só até o Di dormir.' Sophia sorriu fraco me encorajando e eu concordei.

'Mãe, você não gosta mais do papai?' Diego me olhou sério e Sophia soltou um risinho baixo.

'Vem aqui, minha criança.' Falei o carregando. 'A mamãe e o papai só estão com alguns probleminhas de nada, coisa de adulto, tá bom?' Ele sorriu. 'Mas a mamãe ainda gosta muito do papai!' Falei baixinho e beijei sua bochecha ao mesmo tempo em que Micael e Arthur voltavam pra sala. 'Hm.. vamos?' Falei sem olhar pra Arthur.

'Papai vai?' Diego sorriu e Arthur riu confirmando.

Fomos do elevador até o lado de fora do prédio em silêncio. Diego foi no carro de Arthur e eu fui sozinha no meu. Minutos depois estávamos em casa, Arthur levou Diego até o quarto para que ele tomasse banho e fosse dormir, eu preferi ficar na sala, sabia que se fosse pro quarto iria me obrigar a trancar a porta e eu me recusava a ter medo de Arthur.

Fiquei algum tempo sentada no sofá olhando a televisão desligada e depois resolvi finalmente ir pro quarto. Quando estava no corredor ouvi Arthur e Diego conversando e me aproximei da porta entreaberta do quarto de Diego.

'Você não volta mais pra casa?' Diego perguntou e Arthur suspirou.

'Volto, filho. Mas por enquanto vou ficar lá na casa do tio Micael, é melhor assim. Sua mãe e eu estamos com alguns problemas.' Ele repetiu a mesma coisa que eu tinha dito para Diego.
'Mamãe falou, e ela também disse que gosta muito de você.' Botei a mão na boca rapidamente pra conter uma exclamação. Porque crianças têm que ser tão linguarudas? Arthur ficou em silêncio por alguns segundos e eu suspirei dando meia volta para ir para meu quarto, mas aí Arthur resolveu falar.

'Eu também gosto muito dela.' Diego deu uma risadinha. 'Mas papai fez algumas besteiras e machucou muito sua mãe.'

'Pede desculpa.' Diego falou com a voz sapeca e Arthur riu fraco.

'Eu não posso.' Ele respondeu vagamente. 'Nem eu mesmo posso me desculpar pelo que eu fiz. Mas eu vou esperar por ela, quando ela estiver pronta pra me aceitar de volta, então eu também estarei e aí o papai volta pra cá, tudo bem?' 

Não esperei para ouvir a resposta de Diego, apenas fui pro meu quarto e sentei na cama tentando acalmar meu coração que parecia querer sair pela boca. 

Respirei fundo algumas vezes e quando olhei pra porta vi Arthur parado me olhando. Ficamos algum tempo sustentando o olhar, até ele sorrir fraco e sair de casa enquanto eu conseguia ouvir as batidas do meu coração. 


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